
"Há obviamente que saudar a publicação do novo livro de Alberto Pereira que ostenta o belo e sugestivo título Amanhecem nas Rugas Precipícios (2011) e que vem a lume na Edium Editores, uma editora que generosamente muito tem apostado em talentos cujas obras, de outro modo, não veriam a luz do mundo. E um novo livro de poesia é sempre isso: um novo nascimento, uma nova luz que principia e que se anuncia à alma de quem lê e de quem, com isso, se torna outro. Há obras que de tão intensas nos atingem inapelavelmente e creio que a presente obra, que aqui compulsarei em termos muito sumários, constitui um exemplo paradigmático dessa mudança que é inaugurada pelo dizer poético. Recordemo-nos do ecoante verso de Rilke e da solicitação existencial que ele encerra: “Tens de mudar a tua vida” (Du musst dein Leben ändern, Rilke, 1996: 513).
O livro em apreço encontra-se estruturado em duas partes facilmente identificáveis: uma primeira secção, intitulada “Meteorologista de Lágrimas” e constituída por 24 poemas e uma secção final intitulada “Facas e Muros” (que manifesta um registo mais duro e “laminar”) que, por sua vez, se subdivide no desdobramento duplo desses dois nós imagéticos já enunciados.
De entre os múltiplos fios temáticos que se entretecem ao longo desta obra gostaria de destacar a presença obsidiante da memória que assombra o coração e as margens desta poesia. Trata-se de uma presença insistente, demorando-se no paciente espraiar dos versos, prolongando-se no rigoroso e inusitado cerzir das fortíssimas e envoltentes imagens de que se alimenta o texto. Todavia, a chave do texto (se ela existe ou se algum sentido advirá de a procurar) não nos é concedida de um modo transparente: gostaria de defender que a poesia de Alberto Pereira é simultaneamente luminosa e opaca ou, se quiserem numa outra formulação, luminosamente opaca. Confia-nos alguns dos seus segredos, é certo; mas recusa oferecer-se totalmente, pelo menos de um modo linear; é um livro, em suma, que alberga o cintilante dom dos enigmas. Num outro contexto, tive a oportunidade de confessar que me agrada pensar o poema como segredo: como um nomear o mundo em surdina. A poesia, os poemas, tudo isto se faz pela linguagem. Linguagem saída das mãos de fogo do mistério. Compreender a esfinge que toda a poesia é significa deixar-se seduzir pelo seu canto enigmático, aceitar acolher a nudez de um silêncio cantante. É desse paradoxo resplandecente que nos fala o brilhante testemunho teórico que é o texto Che Cos’é la Poesia?, do filósofo Jacques Derrida: “Chamarás poema a uma encantação silenciosa, à ferida áfona que de ti desejo aprender de cor” (Derrida, 2003: 9). Estou em crer que esta poesia partilha alguns dos preceitos que atrás deixei enunciados. Essa comunhão, parece-me, contribui de um modo iniludível para um enriquecimento do livro que é sustentado por versos de inegável beleza que aí desfilam. Isto não significa que a poesia de Alberto Pereira se deixe aprisionar pelas algemas de um obscurantismo desnecessário e improfícuo, exigindo intricadas elucubrações hermenêuticas. Ao invés, estamos perante uma voz clara que assume uma poética pouco dada ao enleio abstracto tão em voga em algumas das constelações recentes da poesia portuguesa contemporânea. De facto, o desnudamento confessional em alguns destes poemas apela à adesão emocional por parte do leitor, conferindo-lhe, assim, uma singular espessura no ritmo cardíaco do seu dizer. Neste sentido aproxima-se de uma ars poetica como a de Paul Celan, que sempre gostou de ver os seus poemas como uma mensagem numa garrafa ou como um singelo e desafectado aperto de mãos, caminhando ao encontro de um absolutamento Outro: “O poema é solitário; é solitário e, no entanto, vai a caminho” (Celan, 1996: 57).
Ora, creio que todas estas considerações encontram ímpar ressonância na concretização da leitura que podemos fazer desta poesia. Não sendo de maneira nenhuma niilista, a voz que fala nestes poemas reconhece a tragicidade da existência (Unamuno#), a fugacidade do nosso estar-no-mundo, a nomeação da morte, a inelutável passagem do tempo e a dor que habita os nossos sonhos e as nossas errâncias. Mas, ainda assim, a despeito deste acorde nocturno, há lugar para partirmos em busca dessa delicada salvação que o poema permite e convida, a demanda de uma ‘presença real’ (cf. G. Steiner, 1989) que o amor consente. Esta dualidade, este jogo entre luz apolínea e sombra dionisíaca, entre redenção e ruína, está desde logo presente no título “Amanhecem nas rugas precipícios”, em que o verbo “amanhecer” colide semanticamente com o substantivo “precipícios”.
Regressando à temática central da memória (esquivo fio de Ariadne que importa não perder de vista), é o tempo da infância que é aqui convocado, tematizado e declinado em diversos poemas. De resto, a primeira parte, “Meteorologista de lágrimas”, é encabeçada pela epígrafe de Herberto Helder: “Tenho uma criança perdida em todos os lugares.” Gostaria de chamar a atenção para o poema inaugural desta primeira secção, “Inverno”, na medida em que ele condensa in nuce muitos dos fios condutores que percorrem e unificam esta poesia: a problemática da infância, aqui descrita como “vício que acontece a vida inteira” (Pereira, 2011: 11), é antiteticamente introduzida pela menção ao inverno (ancorado no tempo presente) por oposição ao tempo idealizado da infância, certamente situado num idílico passado, embora igualmente atravessado por matizes de sombreados. Ouçamos a primeira parte do poema: “Faz já muito tempo que o corpo é inverno./Do céu em cacos, chove a infância,/esse vício que acontece a vida inteira./Espreguiça-se a idade/em que entrávamos por dentro de nós,/sem medo de descobrirmos o que éramos./Tínhamos os brinquedos espalhados no coração/e as estrelas atadas entre os dedos./Era o tempo como uma lenda./Nasciam aves nos passos,/as paisagens ajoelhavam-se nas horas/e ninguém fechava os dias” (Id. ibid.). O tempo que aqui assoma pela pena do poeta caracteriza-se por uma genuína descoberta do eu, sendo que o sujeito poético logra experimentar o tempo como liberdade. Esta menção à percepção temporal multiplica-se ao longo de todo o livro e manifesta-se na utilização plural de expressões como: “manejo dos anos” (Id. ibid.: 12), “declive dos dias” (Id. ibid.: 13), “brechas do tempo”, “dilatadas manhãs” (Id. ibid., poema “Infância com Ilhas”), “o tempo vestiu-nos de nada” (Id. ibid.: 26), “o desenlace dos dias,/os minutos a respirarem a névoa” (Id. ibid.: 27), “Os dias ardem na distância” (Id. ibid.: 34), “os sinos a quebrar as horas” (Id. ibid.: 33), “Os dias avançam como valas” (Id. ibid.: 35).
Gostaria igualmente de me reportar ao segundo poema, “Crepúsculo Nu”, onde a díade presente/passado instaura um outro par dicotómico - o espaço utópico da interioridade em contraposição a um distópico espaço da exterioridade: “Nasci louco, fui perdendo o corpo no manejo dos anos./A terra não vigiava os passos,/falavam desse mar invertido calafetado sobre as cabeças./Depois encostaram adultos aos brinquedos e estes ficaram amargos./Mataram-me as lendas nos olhos/quando os dias degolaram a inocência./Apenas conhecia a mitologia de quatro paredes./Cá fora os homens reivindicando o inferno,/sujos, cambaleantes, pulverizando nódoas” (Id. ibid.: 12). Aqui não só se tematiza um processo de perda que mina a almejada unidade que anima o sujeito na sua aventura rememorativa, como também se anunciam duas das isotopias fundamentais desta tessitura poética: os brinquedos e as nódoas (cf. particularmente o poema “Doem Brinquedos nas veias”, Id. ibid.: 29). Ainda no mesmo poema, atente-se: “Olham agora para trás,/espiam o sangue./[…] Pergunto-me até, para quê sangue,/se rezar nos pulmões não parou a névoa” (Id. ibid.: 12). Lançando o olhar para o labirinto da memória, o sujeito que assim rememora, espera que Eurídice não se esfume, pois a névoa do esquecimento tudo envolve e tudo apaga. E o esquecimento é justamente a sombra que paira sobre as costuras destes versos, anunciando a amargura da pungentemente aguda passagem do tempo e da falência do quotidiano amordaçado: “Ninguém se conhece,/os corpos ácidos de rotina,/desabam” (Id. ibid.: 13).
Exibindo várias valências, é sobretudo nessa ponte que une e separa tempos diversos, é sobretudo nesse vaivém da memória, que a auscultação do real se dá mais intensamente. Com traços que, a meu ver, ecoam a poesia órfica de Eugénio de Andrade - de resto, em “Afinador de Nuvens” essa dívida de luz é explicitamente nomeada com a menção “Em intertexto com Eugénio de Andrade”), o poema “Retrato de um beijo enquanto infância” resgata essa reflexão incessante em torno dessa errância entre as duas margens do tempo: “Às vezes,/as pessoas encostavam nomes com os lábios.//Para mim, nesse tempo/não eram beijos;/eram búzios que dançavam/e as bocas erguiam em seus mastros,/gaivotas” (Id. ibid.: 14).
Esta dimensão solar que coroa a infância é explorada no poema que se segue, “Pássaros breves”: “Estremeço,/já não vejo os pássaros que nasciam na garganta/quando dizias meu amor./[…] Nunca a eternidade se demorara na pele/como nesse tempo./Trazíamos o céu entre os anéis/e a força com que apertávamos o paraíso./Deus sentava-se no coração/a adiantar as horas,/a manhã chegava mais cedo./Era urgente não adormecer,/viviam-se muitos anos num dia/e cada pensamento/coleccionava o mundo inteiro” (Id. ibid.: 15). Se, por um lado, mais uma vez se reitera aqui uma positiva percepção do tempo que ocorre na infância, e que proporciona ao sujeito poético um irrefragável refrigério e uma penetrante sensação de liberdade, por outro, é a passagem do tempo que arruina essa íntima relação com a transparência dessa idade sonhada: “O sangue ruiu quando partiste./Descobri então que o corpo/não tinha lista de espera para as cicatrizes” (Id. ibid.: 15).
Creio não equivocar-me quando afirmo que este interminável jogo de espelhos ao nível temporal se plasma de um modo candente no diálogo que a voz do poeta encena com um destinatário de contornos incertos que, em última análise, é o próprio leitor. Trata-se, enfim, de um jogo complexo, no arame e sem rede. Se, por um lado, num poema como “Afinador de Nuvens”, a utilização do deíctico sugere uma proximidade desejável com o receptor da mensagem poética: “E ali estás tu,/o catálogo de precipícios/que não esqueço” (Id. ibid.: 16), já no poema com o título “Impossível” esse encontro sonhado esbarra no vazio: “Chegar a ti, impossível./As manhãs já não dizem tempo” (Id. ibid.: 17).
O desejo muito proustiano de congelar esse tempo prometido e de assim curar as feridas de Cronos é concretizado através do recurso à fotografia. Leiamos na sua totalidade o poema intitulado “Feridas”: “Parámos a infância numa fotografia.//Era um tempo no alto da eternidade./A madrugada trazia pássaros/e o sol disparava praias pelas janelas./Na melodia das aves,/ouviam-se as viagens falar com os barcos./Quando as mães abriam a porta,/o mar vinha./Imaginávamos então as algas ao vento/e os peixes a ir à lua./Com os seus mapas,/a areia ensinava/os dedos a encontrarem castelos./Nos baldes trazíamos o oceano/para fazer lagoas só nossas.//A solidão tem tanto Agosto” (Id. ibid.: 23). Um dos pontos altos deste livro, este belíssimo poema consegue veicular os anseios mais íntimos do sujeito poético, constituindo como que uma cartografia segura dos passos há muito perdidos da nostalgia: e é interessante notar como a coda, em antítese com o desenvolvimento, nos diz como a solidão, que irrompe no tempo presente, é iluminada pela recordação fulgurante da infância, mostrando-nos como o passado continuamente vasculha o presente, espreitando pelas suas mais recônditas gavetas.
Esta valorização desse tempo fundador não significa uma ingénua e inócua celebração da existência; na verdade, na secção IV do mesmo poema, lemos que: “Afinal,/morremos na infância” (Id. ibid.: 26), apontando, assim, para a inescapabilidade da morte desde o prelúdio desta nossa travessia pelo mundo. Esse lado nocturno e sabiamente melancólico (de resto, “Melancolia” é um dos poemas que integram este livro) emerge no poema “Nódoas acordadas” no verso lapidar: “Aprendi tantas vezes a morte” (Id. ibid.: 27). Não obstante, a sombra deste olhar mais crepuscular é sempre iluminada por um qualquer gesto mínimo de redenção e de harmonia, por mais precária que esta revele ser: “Mas o tempo trazia sempre/uma fogueira a acordar outro rosto” (Id. ibid.: 27). Esta fértil hesitação entre luz e sombra a que já aludi exibe uma particular acuidade no modo como, numa mesma composição (e falo aqui do já mencionado poema “Feridas”), a secção III (“Já reparaste que a morte hoje tem pássaros?”, Id. ibid.: 25) fecundamente dialoga com a secção IV (“Com o sangue de todos,/o tempo vestiu-nos de nada”, Id. ibid.: 26). Para este meteorologista de lágrimas, a vida é “apenas uma miserável nódoa de paraíso” (Id. ibid.: 16) e o paraíso, esse, é “uma viagem/que termina sempre no inferno” (Id. ibid.: 18). Mas, como nos diz no poema “A um minuto da infância”, é sempre possível “reanimar o arco-íris” (Id. ibid.: 30). Estamos perante uma fértil hesitação que reverbera nas refulgentes palavras de María Zambrano quando, em “Poesia e Ética”, incluído na obra A Metáfora do Coração, nos diz que: “Para a poesia, nada vence a morte, a não ser, por momentos, o amor. Somente o amor. Mas o amor desesperado, o amor que vai irremissivelmente também para a morte e que o sabe” (Zambrano, 1993: 78).
A poesia hesita e sempre hesitará entre estes dois pólos da equação da vida: ora se apaga, ora se acende brevemente, ora nos sussura que estamos perdidos, ora nos acaricia com a esperança de uma salvação, o que em certa medida é a promessa contida no seguinte testemunho de Novalis: “A poesia cura as feridas que a razão instaurou” (“Die Poesie heilt die Wunden, die der Verstand schlägt.” Novalis, 2005: 814)
Mas Amanhecem nas Rugas Precipícios encerra uma outra promessa: o compromisso de abraçar a urgência de comunicabilidade que, na óptica de Ted Hughes, caracteriza a essência do dizer poético. No ensaio “As Palavras e a Experiência”, incluído no livro O Fazer da Poesia, Hughes declara: “[…] é possível ocasionalmente, por breves instantes, encontrar as palavras que abram as portas de todas as inúmeras divisões no interior da nossa cabeça e exprimir alguma coisa – talvez não muita coisa, mas alguma […]. Alguma coisa dessa música inaudível que vai correndo, instante após instante, no nosso corpo, como a água de um rio. Alguma coisa da essência de um floco de neve ao pousar sobre as águas de um rio. Alguma coisa da duplicidade, da relatividade e da qualidade meramente fugaz de tudo isso. Alguma coisa da sua importância omnipotente e da sua profunda ausência de significação. Quando as palavras, num instante de tempo único e preciso, conseguem fazer isso e nesse instante torná-lo parte da assinatura vital de um ser humano – não de um átomo, de um diagrama geométrico ou de um monte de lentes sobrepostas – mas de um ser humano, a isso chamamos poesia” (Hughes, 2004: 176).
No início reportei-me ao dom dos enigmas. O livro que temos em mãos tem esse dom. A nós, o que se nos pede é que estendamos o coração e que abracemos a coragem de escutá-lo."
Texto de apresentação do livro " Amanhecem nas Rugas Precipícios", elaborado por Ricardo Gil Soeiro
Referências bibliográficas:
- Celan, Paul (1996), Arte Poética. O Meridiano e outros textos, Lisboa, Livros Cotovia.
- Derrida, Jacques (2003), Che cos’è la poesia? Coimbra, Angelus Novus.
- Hughes, Ted (2004), “As Palavras e a Experiência”, O Fazer da Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim.
- Martelo, Rosa Maria (2010), “Poesia e des-equilíbrios”, A Forma Informe. Leituras de Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, pp. 9-18.
- Nancy, Jean-Luc (2005), Resistência da Poesia, Lisboa, Vendaval.
- Novalis [Friedrich von Hardenberg] (2005), “Fragmente und Studien 1799-1800”, Das philosophisch-theoretische Werk, Band 2, edição de Hans-Joachim Mähl, München/Wien, Carl Hanser Verlag, p. 814.
- Pereira, Alberto (2011), Amanhecem nas Rugas Precipícios, Matosinhos, Edium Editores.
- Rilke, Rainer Maria (1996), “Archaïscher Torso Apollos”, Gedichte 1895-1910, herausgegeben von Manfred Engel und Ulrich Fülleborn, Frankfurt am Main und Leipβig, in: Werke. Kommentierte Ausgabe in vier Bänden, herausgegeben von Manfred Engel, Ulrich Fülleborn, Horst Nalewski, August Stahl, Band I, Insel Verlag, p. 513.
- Steiner, George (1989), Real Presences, London, Faber and Faber.
- Unamuno, Miguel de (1989), Do Sentimento Trágico da Vida. Nos Homens e nos Povos (título original: Del Sentimiento Trágico de la Vida, trad. de Artur Guerra), Lisboa, Círculo de Leitores.
- Zambrano, María (1993), “Poesia e Ética”, A Metáfora do Coração e outros escritos, Lisboa, Relógio D’Água, p. 78.